terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Para um quadro de referência na aprendizagem com as TIC na biblioteca escolar

Surgidas num contexto resultante de novas políticas educativas, as metas curriculares vieram balizar os saberes e as competências que se espera que os alunos dominem, no final de um determinado ciclo de ensino. Estas metas reforçam a componente cognitivista da aprendizagem, relegando para um plano ancilar a dimensão construtivista do conhecimento.

Assim, e neste contexto, o papel da biblioteca escolar terá de, forçosamente, impor-se numa perspetiva em que o trabalho em torno das competências transversais seja nuclear, pois, como se poderá prever, o desenvolvimento de tais competências, no âmbito das diferentes disciplinas, verá o seu tempo reduzido, com as novas formulações prescritas pela tutela.

As competências no âmbito das tecnologias da informação e da comunicação encontram na biblioteca escolar uma ecologia que propicia o seu desenvolvimento, quando se trabalha a literacia da informação, a literacia digital, a literacia da leitura ou a literacia dos media. De facto, tais competências são hoje cada vez mais vistas como transcompetências. Por um lado, as fronteiras entre elas são fluidas e, por outro, apesar de perderem esse estatuto, no quadro das novas metas curriculares, elas continuam a ser essenciais no percurso dos estudantes e durante a sua vida.

Como salienta Costa (2010, p. 931), a reflexão em torno da importância das TIC é alimentada por uma realidade multifactorial «Não apenas pelo evidente potencial que as tecnologias encerram, visível através da apropriação efectiva e generalizada em todos os campos da actividade produtiva ou de lazer, mas sobretudo pelo que essa nova realidade significa para uma escola cada vez mais obsoleta da função de preparar as novas gerações para o mundo do trabalho, para a vida em sociedade». De facto, o impacto da tecnologia na sociedade contemporânea está longe de se resumir à maior facilidade com que realizamos várias tarefas.

Para além das razões já apresentadas, a transversalidade das competências em tecnologias da informação e da comunicação torna-se evidente em virtude de, no seio da disciplina de TIC serem encaradas numa perspetiva tríplice: (i) como um fim em si mesmo (saber usar), (ii) como competências instrumentais ao serviço dos outros saberes disciplinares (saber usar para aprender o currículo) e iii) como estratégia de desenvolvimento intelectual e social dos indivíduos (saber usar para pensar, decidir e agir).

No contexto da disciplina de TIC, tais competências contemplam, ainda, quatro planos: informação, comunicação, produção e segurança. Ora, se atentarmos nestes quatro pilares da literacia digital, facilmente verificamos que se associam, de imediato, ao trabalho que é desenvolvido pelas bibliotecas escolares e às grandes linhas norteadoras do referencial Aprender com a biblioteca escolar.

O trabalho colaborativo do professor bibliotecário, com outros docentes, pode sair enriquecido quando enquadrado pelos documentos a que tem vindo a ser feita referência. Importa, então, verificar de que forma estes documentos se podem articular.

Como tenho trabalhado, sobretudo, com alunos do ensino secundário, lancei um olhar atento sobre as metas preconizadas para o terceiro ciclo do ensino básico. Assim, e centrando-me no plano II, referente à informação e à comunicação (Costa, 2010, p. 2 – 3.º ciclo), nele encontramos formulações como «Capacidade de procurar e de tratar a informação de acordo com objectivos concretos: investigação, selecção, análise e síntese dos dados» ou «Capacidade de comunicar, interagir e colaborar usando ferramentas e ambientes de comunicação em rede como estratégia de aprendizagem individual e como contributo para a aprendizagem dos outros». Ora, tais formulações podem ser ancoradas nos domínios do referencial Aprender com a biblioteca escolar, onde se contempla a dimensão de tratamento da informação e a utilização de ferramentas digitais para a produção e disseminação de conhecimento. Outros exemplos poderiam ser apresentados, nomeadamente os que se referem à dimensão ética da informação, à meta-aprendizagem e à criatividade, aspetos por que a atuação das bibliotecas escolares também se rege.



O trabalho realizado com os diferentes media (jornais e televisão, por exemplo), estipulado nos documentos de referência (tanto nas Metas Curriculares de TIC como no referencial Aprender com a Biblioteca Escolar) constitui, também, uma importante área de atuação do professor bibliotecário que pode sair enriquecida se este olhar com atenção para o que surge preconizado em ambos os textos. De facto, o documento onde surgem enunciadas as metas vai mais longe e apresenta estratégias que permitem o alcance das metas traçadas, para além de incluir descrição dos perfis de desempenho esperados.

A sociedade de hoje é excessivamente mediatizada, o que nos leva a concluir que os próprios meios de comunicação (re)criam essa realidade, que surge aos nossos olhos filtrada por múltiplas leituras. Ora, essa mediatização, por vezes, transmite-nos uma visão deformada da realidade que nos rodeia, cada vez mais assente na produção, distribuição e tratamento da informação. Cabe à biblioteca escolar, à luz dos documentos que presidiram a esta reflexão, estabelecer uma espécie de «quadro de referência» para o desenvolvimento de competências em tecnologias da informação e da comunicação e no desenvolvimento da literacia digital. Mas, para além desse referencial teórico, importa desenvolver ações concretas com os professores de várias disciplinas que poderão passar pela preparação de atividades conjuntas, centradas na avaliação da informação disponibilizada online ou na formação para a utilização de ferramentas digitais. Tais atividades poderão também ser desenvolvidas com professores que, depois, também se sentirão mais confortáveis ao desenvolver atividades deste tipo com os seus alunos, na biblioteca ou na sala de aula.

As funções dos sistemas educativos, no atual momento de mudança, ampliaram-se e tornam-se mais importantes. Esses sistemas têm de se abrir a todos, independentemente da idade e do nível de instrução. Para além disso, os saberes privilegiados devem possibilitar, simultaneamente, uma passagem à vida ativa e a maleabilidade intelectual para (re)aprender, de forma contínua, em qualquer contexto organizacional.

Na sociedade da informação e do conhecimento (em que o segundo núcleo do termo resulta do tratamento que se faz à informação que se recebe), educar faz-se sob o signo da diversidade: de saberes, de técnicas, de públicos e de meios. Nessa medida, o professor bibliotecário, para além das funções típicas da sua atividade, terá de desempenhar a função de gestor da informação, de mediador entre o estudante e a plêiade de meios que, hoje, estão à sua disposição para ter acesso à informação, tratá-la e difundi-la.

Penso que a visão demasiado «tecnocêntrica» que, por vezes, tem imperado, também não é a adequada. Para que a utilização das TIC seja relevante, do ponto de vista das aprendizagens, é importante adequar as ferramentas disponibilizadas à natureza, aos hábitos próprios de cada disciplina e, indo mais longe, de cada atividade, de cada conteúdo e de cada aluno. É aí que poderão dar um importante contributo os documentos que estruturaram a reflexão aqui apresentada.

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Documentos referidos:

[1] COSTA, Fernando et al. (2010). Metas de Aprendizagem na área das TIC. in DGIDC-ME (2010). Metas de Aprendizagem. Lisboa: DGIDC/ME. Disponível em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/6567

[2] PORTUGAL. Ministério da Educação e Ciência. Gabinete da Rede Bibliotecas Escolares: Aprender coma biblioteca escolar . Lisboa: RBE (2012) Disponível em http://www.rbe.min-edu.pt

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