Surgidas num contexto
resultante de novas políticas educativas, as metas curriculares vieram balizar
os saberes e as competências que se espera que os alunos dominem, no final de um
determinado ciclo de ensino. Estas metas reforçam a componente cognitivista da
aprendizagem, relegando para um plano ancilar a dimensão construtivista do
conhecimento.
Assim, e neste
contexto, o papel da biblioteca escolar terá de, forçosamente, impor-se numa
perspetiva em que o trabalho em torno das competências transversais seja
nuclear, pois, como se poderá prever, o desenvolvimento de tais competências,
no âmbito das diferentes disciplinas, verá o seu tempo reduzido, com as novas
formulações prescritas pela tutela.
As competências no
âmbito das tecnologias da informação e da comunicação encontram na biblioteca
escolar uma ecologia que propicia o seu desenvolvimento, quando se trabalha a
literacia da informação, a literacia digital, a literacia da leitura ou a
literacia dos media. De facto, tais
competências são hoje cada vez mais vistas como transcompetências. Por um lado,
as fronteiras entre elas são fluidas e, por outro, apesar de perderem esse
estatuto, no quadro das novas metas curriculares, elas continuam a ser
essenciais no percurso dos estudantes e durante a sua vida.
Como salienta
Costa (2010, p. 931), a reflexão em torno da importância das TIC é alimentada
por uma realidade multifactorial «Não apenas pelo evidente potencial que as
tecnologias encerram, visível através da apropriação efectiva e generalizada em
todos os campos da actividade produtiva ou de lazer, mas sobretudo pelo que
essa nova realidade significa para uma escola cada vez mais obsoleta da função
de preparar as novas gerações para o mundo do trabalho, para a vida em
sociedade». De facto, o impacto da tecnologia na sociedade contemporânea está
longe de se resumir à maior facilidade com que realizamos várias tarefas.
Para além das
razões já apresentadas, a transversalidade das competências em tecnologias da
informação e da comunicação torna-se evidente em virtude de, no seio da
disciplina de TIC serem encaradas numa perspetiva tríplice: (i) como um fim em
si mesmo (saber usar), (ii) como competências instrumentais ao serviço dos
outros saberes disciplinares (saber usar para aprender o currículo) e iii) como
estratégia de desenvolvimento intelectual e social dos indivíduos (saber usar
para pensar, decidir e agir).
No contexto da
disciplina de TIC, tais competências contemplam, ainda, quatro planos:
informação, comunicação, produção e segurança. Ora, se atentarmos nestes quatro
pilares da literacia digital, facilmente verificamos que se associam, de
imediato, ao trabalho que é desenvolvido pelas bibliotecas escolares e às
grandes linhas norteadoras do referencial Aprender
com a biblioteca escolar.
O trabalho colaborativo
do professor bibliotecário, com outros docentes, pode sair enriquecido quando
enquadrado pelos documentos a que tem vindo a ser feita referência. Importa,
então, verificar de que forma estes documentos se podem articular.
Como tenho
trabalhado, sobretudo, com alunos do ensino secundário, lancei um olhar atento
sobre as metas preconizadas para o terceiro ciclo do ensino básico. Assim, e centrando-me
no plano II, referente à informação e à comunicação (Costa, 2010, p. 2 – 3.º
ciclo), nele encontramos formulações como «Capacidade de procurar e de tratar a
informação de acordo com objectivos concretos: investigação, selecção, análise
e síntese dos dados» ou «Capacidade de comunicar, interagir e colaborar usando
ferramentas e ambientes de comunicação em rede como estratégia de aprendizagem
individual e como contributo para a aprendizagem dos outros». Ora, tais formulações
podem ser ancoradas nos domínios do referencial Aprender com a biblioteca escolar, onde se contempla a dimensão de
tratamento da informação e a utilização de ferramentas digitais para a produção
e disseminação de conhecimento. Outros exemplos poderiam ser apresentados, nomeadamente
os que se referem à dimensão ética da informação, à meta-aprendizagem e à
criatividade, aspetos por que a atuação das bibliotecas escolares também se
rege.
O trabalho
realizado com os diferentes media (jornais
e televisão, por exemplo), estipulado nos documentos de referência (tanto nas Metas Curriculares de TIC como no referencial
Aprender com a Biblioteca Escolar)
constitui, também, uma importante área de atuação do professor bibliotecário
que pode sair enriquecida se este olhar com atenção para o que surge
preconizado em ambos os textos. De facto, o documento onde surgem enunciadas as
metas vai mais longe e apresenta estratégias que permitem o alcance das metas
traçadas, para além de incluir descrição dos perfis de desempenho esperados.
A sociedade de hoje é excessivamente
mediatizada, o que nos leva a concluir que os próprios meios de comunicação
(re)criam essa realidade, que surge aos nossos olhos filtrada por múltiplas
leituras. Ora, essa mediatização, por vezes, transmite-nos uma visão deformada
da realidade que nos rodeia, cada vez mais assente na produção, distribuição e
tratamento da informação. Cabe à biblioteca escolar, à luz dos documentos que
presidiram a esta reflexão, estabelecer uma espécie de «quadro de referência»
para o desenvolvimento de competências em tecnologias da informação e da
comunicação e no desenvolvimento da literacia digital. Mas, para além desse
referencial teórico, importa desenvolver ações concretas com os professores de
várias disciplinas que poderão passar pela preparação de atividades conjuntas,
centradas na avaliação da informação disponibilizada online ou na formação para a utilização de ferramentas digitais. Tais
atividades poderão também ser desenvolvidas com professores que, depois, também
se sentirão mais confortáveis ao desenvolver atividades deste tipo com os seus
alunos, na biblioteca ou na sala de aula.
As funções dos sistemas educativos, no atual momento de mudança, ampliaram-se
e tornam-se mais importantes. Esses sistemas têm de se abrir a todos,
independentemente da idade e do nível de instrução. Para além disso, os saberes
privilegiados devem possibilitar, simultaneamente, uma passagem à vida ativa e
a maleabilidade intelectual para (re)aprender, de forma contínua, em qualquer
contexto organizacional.
Na sociedade da informação e do
conhecimento (em que o segundo núcleo do termo resulta do tratamento que se faz
à informação que se recebe), educar faz-se sob o signo da diversidade: de
saberes, de técnicas, de públicos e de meios. Nessa medida, o professor
bibliotecário, para além das funções típicas da sua atividade, terá de
desempenhar a função de gestor da informação, de mediador entre o estudante e a
plêiade de meios que, hoje, estão à sua disposição para ter acesso à
informação, tratá-la e difundi-la.
Penso que a visão demasiado «tecnocêntrica» que, por vezes, tem
imperado, também não é a adequada. Para que a utilização das TIC seja
relevante, do ponto de vista das aprendizagens, é importante adequar as
ferramentas disponibilizadas à natureza, aos hábitos próprios de cada
disciplina e, indo mais longe, de cada atividade, de cada conteúdo e de cada
aluno. É aí que poderão dar um importante contributo os documentos que
estruturaram a reflexão aqui apresentada.
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Documentos
referidos:
[1] COSTA,
Fernando et al. (2010). Metas de Aprendizagem na área das TIC.
in DGIDC-ME (2010). Metas de Aprendizagem. Lisboa: DGIDC/ME. Disponível em
http://repositorio.ul.pt/handle/10451/6567
[2] PORTUGAL.
Ministério da Educação e Ciência. Gabinete da Rede Bibliotecas Escolares: Aprender coma biblioteca escolar .
Lisboa: RBE (2012) Disponível em http://www.rbe.min-edu.pt






